O 3×4 de Elza Dutra
Natal viveu nas últimas semanas um alto índice de suicídio, casos que brotaram na mídia, assustando leitores e cidadãos preocupados com os tempos atuais.
Com tal cenário, convidei uma das especialistas no assunto, pesquisadora há 30 anos, que em dezembro último lançou o livro “O suicídio como fenômeno humano”, em que analisa casos de suicídio no RN.
Psicóloga e pesquisadora, Ela é Professora Titular aposentada de Psicologia Clínica Fenomenológica da UFRN, sendo também a fundadora e Coordenadora do Núcleo de Psicologia Fenomenológica.
Além disso, é querida e respeitada por quem a conhece.
Estou falando de Elza Dutra, que com orgulho e carinho a convidei para esta entrevista.
Contudo, a seguir, o 3×4 de Elzinha Dutra…

TRABALHO… Trabalhar com aquilo que dá sentido à vida, se possível, já que nem sempre se trabalha no que se ama, mas por necessidade de sobreviver. Como já dizia o meu pai, o trabalho dignifica o homem.
PSICOLOGIA… Minha grande paixão. Transformou a minha vida, representou um divisor de águas. Me salvou de um mundo que não fazia sentido na minha existência.
ACADEMIA… Exercício físico? musculação? imprescindíveis para manter a vitalidade e a mobilidade. Procuro me exercitar pelo menos 3x na semana. É uma tarefa nem sempre prazerosa, porém necessária.
SUICÍDIO… Há 30 anos me encantei por esse tema, devido ao mistério que ele encerra, pois o desejo de pôr fim à vida, bem como os motivos que levam alguém a cometer este ato nunca poderão ser conhecidos de forma objetiva e conclusiva, uma vez que só a própria pessoa sabe das suas dores e o peso da existência que ela carrega. Diferente dos parâmetros psiquiátricos e biomédicos tradicionais, que sempre associam o comportamento suicida aos transtornos mentais, como depressão, transtorno bipolar, etc., os meus estudos no campo da psicologia fenomenológica me levam a valorizar e focalizar a existência e como o mundo se transformou para o paciente. Procuro obter uma compreensão de como a pessoa se constituiu no mundo, quais os sentidos da sua vida ou o que lhe fez perdê-los, quais os motivos que a levaram a não mais desejar viver. No meu entendimento o sofrimento da pessoa que deseja pôr fim à vida frequentemente envolve uma combinação de perda de sentido, ruptura de pertencimento, fechamento do futuro, intensificação da dor existencial e estreitamento das possibilidades de existir. Tenho convicção de que o ato de pôr fim à vida não deveria ser considerado uma doença a ser curada, medicalizada, mas como uma experiência de perda de sentido, de não caber no mundo. É preciso interrogar sobre as condições de “habitar”, como pertencimento, que o mundo tem oferecido. O sofrimento não deveria ser visto como uma questão apenas individual; é preciso entender que ele se constitui no mundo, numa determinada época e isso deveria ser motivo de atenção para quem lida com saúde mental. A sociedade produz os sofrimentos, e cada um de nós reage ao mundo de acordo com o seu modo de interpretá-lo. Os sofrimentos sempre dizem do horizonte histórico, da época em que estamos vivendo. Na atualidade, como já disse o filósofo Byung-Chul Han, em seu livro A sociedade do cansaço, vivemos uma sociedade que prega o sucesso a qualquer custo, o empreendedorismo, e o culto à imagem, ou seja, uma sociedade do desempenho. Com isso, resta pouco tempo para o pensamento, para o ser-si-mesmo, enfim, para uma existência mais autêntica e singular. O resultado? Sensação de não pertencer, de desenraizamento e de não caber no mundo. O desespero e a desesperança se fazem presentes, sinalizando o não mais viver como uma saída para o sofrimento.
VIDA… É fluida e passageira. Como diz Clarice Lispector, “a vida é um sopro”. Amo viver.
EDUCAÇÃO… A educação é fundamental porque forma sujeitos conscientes, sustenta a vida democrática, transmite cultura, amplia possibilidades de existência e contribui para a construção de uma sociedade mais justa. Enfim, como dizia Paulo Freire, educar é um processo de humanização, no qual o sujeito aprende a ler não apenas as palavras, mas também o mundo.
ECONOMIA… Quando nos referimos à economia, não estamos falando apenas em dinheiro ou mercado, mas ao modo como os seres humanos produzem, distribuem e utilizam os recursos necessários para viver. A economia garante as condições materiais da vida humana, a economia organiza o trabalho e a produção, enfim, a economia influencia profundamente a vida humana e a saúde mental das pessoas, pois permite que se planeje o desenvolvimento de uma sociedade, além de moldar o comportamento dos indivíduos. Por isso esta é uma pauta tão importante em tempos de eleições. É preciso estar atento ao que o candidato pensa sobre economia, pois ela diz do que se pretende para o futuro e desenvolvimento de uma população.
POLÍTICA… Para início de conversa, o ser humano é um ser político, como diz Hanna Arendt. A política encontra-se em todas as ações humanas, uma vez que esta, a política, é uma atividade pela qual as sociedades organizam o poder, tomam decisões coletivas e buscam construir as condições de convivência e de bem comum. Infelizmente o que vemos no cenário mundial e, principalmente, no Brasil, é o oposto do verdadeiro sentido de política. Nunca tivemos tantos políticos os quais, na maioria das vezes, pregam e agem contrariamente ao que significa ser político: trabalhar pelo coletivo e pelo bem comum.
JUSTIÇA… A justiça está ligada à ideia de dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido. Penso que a justiça busca garantir que as relações sociais ocorram de maneira equilibrada, ética e respeitosa. No entanto, o cenário brasileiro mais uma vez é motivo de críticas. Se juntarmos a política, a educação, economia e justiça, constatamos que o nosso país e aqueles que legislam, criam leis e aplicam a justiça, estão longe de seguir as premissas de cada um desses pilares que são os pilares de uma sociedade. Desigualdades sociais, feminicídios, violência sexual contra crianças e mulheres, são alguns dos fatos que vemos alimentar as estatísticas de suicídio e violência no Brasil, e que o tornam o nosso país aquele que mais mata a comunidade LGBTQIA+. E mais: a cada 24 horas 320 crianças e adolescentes sofrem situação de exploração sexual no Brasil. Em 2023, a cada 6 minutos foi registrado 1 estupro. Em 2025, 1.560 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, sendo quatro mulheres mortas a cada 24 horas. Dos registros de abuso e violência sexual, 32,9% são meninas com idades entre 10 e 13 anos. Por outro lado, a justiça nem sempre é exercida como deveria, por exemplo, as leis e as penalidades aplicadas aos abusadores e estupradores, como é possível constatar em notícias veiculadas na mídia nos últimos dias, objeto de críticas pelo tanto de preconceitos e misoginia que as atravessam. Portanto, cabe a pergunta: essa população citada antes, realmente está recebendo o que lhe é devido? Como está sendo feita a justiça em nosso país?
ELEGÂNCIA… Considero que ser elegante é muito mais do que estar bem-vestido (a), ostentar bens materiais caros ou algo semelhante. Ser elegante é, antes de tudo, tratar bem o mundo, ser gentil, ou seja, exercitar uma postura de delicadeza e respeito ao planeta, à vida e ao outro, seja quem for.
TECNOLOGIA… Trouxe grandes evoluções à humanidade. No entanto, se considerarmos a era digital, o mundo digital tem trazido grandes alterações no modo de ser das pessoas, inclusive favorecendo sofrimentos decorrentes da dependência às redes sociais, aos cancelamentos e a exaustão pela necessidade de validação gerada pelas mídias sociais.
RELIGIÃO… Todas as crenças merecem respeito.
ARTE… Salva a vida quando o muito maltrata. A arte permite ao ser humano atingir o indizível e vivenciar outras facetas da experiencia de ser humano.
MÚSICA… Como se diz, é um alimento para a alma. Gosto de MPB, Bossa Nova, Jazz.
CANTOR… Gosto de vários, principalmente pelas suas composições: Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, The Beatles.
CANTORA… Elis Regina, Gal Costa.
SAÚDE… O bem mais precioso.
PAZ… Necessária nesses tempos de guerra e de ódios.
AMOR… É o que nos move. Toda forma de amor vale a pena…..
PAIXÃO… Um sentimento ardente, uma experiência intensa da vida humana, que nos faz sentir vivos. A paixão não se limita ao amor entre duas pessoas. Podemos nos apaixonar pelo trabalho, por uma ideia, uma arte, uma causa ou simplesmente pela vida. Eu sou apaixonada pela vida!
AMIZADE… Quem tem um amigo tem um tesouro. A amizade nos salva do desamparo e da solidão.
FAMÍLIA… Antes de tudo, a família é um lugar de pertencimento. Ou deveria ser, porque família também é um lugar de tensionamentos, por isso ela é profundamente humana. É um lugar onde a vida se entrelaça, às vezes de forma harmoniosa, outras vezes de forma difícil, mas sempre carregada de vínculos que nos acompanham durante toda a vida.
FELICIDADE… São momentos.
BOA CONVERSA… Com pessoas sensíveis e de bem com a vida. Compartilhar experiências e a existência. A vida é melhor quando se tem amigas (os).
UM MEDO… De turbulências no vôo.
UM ARREPENDIMENTO… Nenhum. Não me arrependo das escolhas que fiz. Sou feliz com as minhas escolhas.
UMA RECORDAÇÃO… Muitas! De viagens, de momentos com pessoas queridas.
UMA REALIZAÇÃO… A minha filha, que ainda me deu três netos que amo.
UM RESTAURANTE… Camarões.
UM PRATO… Massa. Qualquer uma com camarão, por ex., spaguetti gamberi.
UMA BEBIDA… Vinho tinto.
UM FILME… Vários: As pontes de Madison, Hammet, Ainda estou aqui, O agente secreto.
UM LUGAR… Praia.
UM PROGRAMA… Ir ao cinema. Viajar.
UM LIVRO… Memórias de uma moça bem comportada, de Simone de Beauvoir (lido na adolescência); Herdeiras do mar, de Mary Lynn Bracht.
UMA VIAGEM… Sempre, a Paris. Ultimamente, o Japão. Voltei encantada!
UM SONHO… Ver meus netos se tornarem adultos.
UMA FRASE…”Quando o coração está mandando, todo tempo é tempo”. João Guimarães Rosa
UM PROJETO FUTURO… VIVER. Com saúde!
ELZA… “estou aqui, apesar, ainda, agora. É um dizer mínimo para um existir imenso”. Clarice Lispector








