O calote dos outros e as elites convenientes

O que une os discursos dos candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União Brasil) e Cadu Xavier (PT)?
Os dois escolheram o mesmo formato: vídeos em tom de desabafo, gravados dentro de carros em movimento, para tratar do atraso no pagamento dos aposentados e pensionistas do Estado, que aguardam há quatro dias o salário pelo Governo Fátima Bezerra.
Allyson classificou a situação como “calote” e cobrou explicações da gestão estadual. Cadu Xavier, candidato governista, respondeu em defesa do governo do qual faz parte e devolveu o ataque ao ex-governador Robinson Faria, apontando-o como responsável pelo maior atraso já registrado no pagamento do funcionalismo estadual.
Esquecimento seletivo que Robinson foi eleito governador em 2014 no palanque do PT, com apoio de Fátima Bezerra e do presidente Lula. Ao deixar o governo, Faria acumulava quatro folhas salariais em atraso.
Uma marca que entrou para a história do Rio Grande do Norte e que, evidentemente, não pode ser comparada aos quatro dias atuais, mas faz parte de uma crise fiscal que atravessa diferentes gestões.
Na indignação seletiva e na busca pelas “elites de sempre”, falta a resposta que mais interessa ao eleitor: como fazer diferente? Como garantir que o servidor receba em dia? Como impedir que o Estado continue preso ao mesmo ciclo?
Enquanto o debate se resume a apontar heranças, alianças e responsabilidades do passado, pouco se apresenta sobre o futuro.
Também chama atenção o uso recorrente do discurso contra as “elites” políticas, que desaparece quando elas se tornam aliadas convenientes nos palanques.
PT e o próprio Allyson Bezerra já tiveram — ou ainda têm — proximidade com grupos familiares tradicionais da política potiguar, como Maias, Alves, Farias e Mottas. A crítica muda conforme a posição que ocupam na disputa.
Falta, pois, coerência na crítica de ontem e de hoje. Ou de ambas.
O eleitor que acompanha a movimentação intensa nas redes sociais espera que a indignação ultrapasse o discurso e chegue à sua rotina. Quer o salário na conta no dia esperado, o dinheiro para comprar remédios, pagar a comida e honrar os boletos.
O discurso contra as “elites” segue uma lógica seletiva.
A elite parece ser sempre a do outro lado do palanque. Quando adversária, vira símbolo do atraso e daquilo que precisa ser combatido. Quando aliada, transforma-se em composição política, apoio estratégico e soma eleitoral.
