10 de dezembro de 2025
Memória

O NOVIÇO ALEGRE

Detalhe do afresco “Pregação e Atos do Anticristo – Lucca Signorelli – Catedral de Orvieto, Itália


Nos tempos de
Vargas, delegados de polícia  eram escolhidos pelos mesmos critérios que Aspones continuam sendo hoje em dia.

Pelo  QI.

Assim, um comerciante com fama de correto nos negócios, conduta ilibada e durão, tornou-se o novo responsável pela segurança da progressista cidade.

Num tempo em que transviados  só abundavam nos escurinhos dos armários, tal um talibã, escolheu como prioridade, fazer um  jirad contra homossexuais.

Dizia que a cidade já estava por demais mal afamada alhures,  pela sua mocidade alegre.

A estratégia era prender e dar um corretivo  nos mais exibidos e extravagantes.

Certo que só obteria sucesso também com ações preventivas, passou a apreender os  jovens que exibissem trejeitos afeminados, por mais dissimulados que fossem.

Cortar o mal pela raiz, seu lema.

O tratamento precursor da cura gay incluía  longa preleção, corte de cabelos à máquina zero  e devolução pública e ruidosa aos pais.

Um dos punidos, alegre por genética e natureza, mostrou-se mais animado ainda enquanto tinha as madeixas tosadas.

Debochado, encarou a autoridade repressora:

Não vejo a hora de ver o senhor raspando a cabeça do seu querido filho.

No dia seguinte, na capital, o seminário ganhou um noviço.

O Fim da Humanidade (1501) – Lucca Signorelli – Afresco da Capela de San Brizio, Catedral de Orvieto, Itália


Nota do Redator

Publicada há seis anos, esta estória foi baseada em relato de Rosalvo d’Oliveira (1932/2025)

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