O NOVIÇO ALEGRE

Detalhe do afresco “Pregação e Atos do Anticristo – Lucca Signorelli – Catedral de Orvieto, Itália
Nos tempos de Vargas, delegados de polícia eram escolhidos pelos mesmos critérios que Aspones continuam sendo hoje em dia.
Pelo QI.
Assim, um comerciante com fama de correto nos negócios, conduta ilibada e durão, tornou-se o novo responsável pela segurança da progressista cidade.
Num tempo em que transviados só abundavam nos escurinhos dos armários, tal um talibã, escolheu como prioridade, fazer um jirad contra homossexuais.
Dizia que a cidade já estava por demais mal afamada alhures, pela sua mocidade alegre.
A estratégia era prender e dar um corretivo nos mais exibidos e extravagantes.
Certo que só obteria sucesso também com ações preventivas, passou a apreender os jovens que exibissem trejeitos afeminados, por mais dissimulados que fossem.
Cortar o mal pela raiz, seu lema.
O tratamento precursor da cura gay incluía longa preleção, corte de cabelos à máquina zero e devolução pública e ruidosa aos pais.
Um dos punidos, alegre por genética e natureza, mostrou-se mais animado ainda enquanto tinha as madeixas tosadas.
Debochado, encarou a autoridade repressora:
– Não vejo a hora de ver o senhor raspando a cabeça do seu querido filho.
No dia seguinte, na capital, o seminário ganhou um noviço.

Nota do Redator
Publicada há seis anos, esta estória foi baseada em relato de Rosalvo d’Oliveira (1932/2025)
