14 de fevereiro de 2026
CoronavírusMemória

O REBOTE DA CLOROQUINA

Juízo Final (1512) – Michelangelo – Parte do afresco na parede do altar da Capela Sistina, Vaticano


Nem parece que só faz três anos que deste canto de telinha plana, um desabafo gritado aos ventos poluídos pela insensatez, resistiu ao tempo, e ainda merece ser ouvido de novo.

Depois da Aspirina e do Viagra, nenhum medicamento havia feito  tanto sucesso quanto a Cloroquina.

Pelo menos, no Brasil, entre médicos, cientistas, simpatizantes  e comunidade tratamentoprecoce+.

A farmacocinética não explicava como um remédio que não faz efeito algum, continuasse  resistindo na crista da segunda onda e pudesse ficar tanto tempo nas manchetes, horários nobres e boca de quem nega e renega o negacionismo.

Nos Estados Unidos, onde 40% da população não mostrava intenção de ser vacinada,  mesmo com oferecimento de prêmios, brindes e recompensas,  o National Institutes of Health anunciava o financiamento de  um grande ensaio clínico de fase 3, randomizado e controlado por placebo, para testar vários fármacos prescritos off label e sem prescrição, usados no tratamento  dos sintomas iniciais da COVID-19.

O objetivo era encontrar opções de tratamento baseadas em evidências para a maioria dos pacientes adultos que apresentavam sintomas leves a moderados e não estavam doentes o suficiente para serem hospitalizados.

Mal traduzido, para uso em intervenções iniciais, primeiros cuidados, abordagens ou tratamentos precoces.

Investimento de 155 milhões de dólares para estes testes, foram reservados..

Gastando muita saliva e torrando a paciência de todos,  a Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, já havia elevado o anti-malárico ao altar-mor da catedral de Satã, onde a pajelança rezava a missa negra em honra  do demônio responsável por omnia peccata mundi.

Se queriam mesmo investigar desvios de recursos, que seguissem o rastro do dinheiro, o spray dos fimugadores de pneumáticos e outros sumidouros  de verbas públicas.

Até por questão de justiça e isonomia.

Uns compraram remédio pra piolho; outros veneno pra mosquito.

Onde foram parar os palácios de lona que nunca hospedaram um doente sequer?

Quem andava ouvindo o bip bip dos equipamentos jamais transferidos para as UTIs?

Em que canto de almoxarifado estavam amontoados os frascos que  não coletavam mais plasmas de convalescentes?

Depois que todas as reputações fossem assassinadas e os farrapos humanos retirados dos paus-de-arara, algum nobre e impoluto senador haveria de dispor dos  seus quinze minutos de glória e torquemada  para  serviço menos inútil.

Reconhecer que a Cloroquina não era a mãe da cura nem madrasta de todos os males.

E solicitasse que de acordo com o regimento da casa, fosse  anunciado o próximo item da pauta.

O interesse do povo brasileiro nunca foi o que os movia.

 

O pecado original e a expulsão do paraíso – Michelangelo (1475-1564) – Capela Sistina, Vaticano

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