12 de setembro de 2026
Memória

OLÍVIA 45


Estava acordado. Não poderia haver interferências, nem vetos.

O nome do primeiro filho seria escolhido pela mãe.

Do segundo em diante, a salutar alternância.

Num tempo em que  os enxovais só eram completados depois do parto.

Na maternidade, a revelação, segredo a  ser guardado com o pai, até a confirmação do diagnóstico, foi traído pelo semblante de quem nunca pareceu tão desapontado.  

Por motivo superior e inaceitável, o trato teria de ser rompido e a homenagem à bisavó, adiada.

Trocar por um nome mais comum. O mais comum de todos. O de Nossa Senhora, não foi aceito.

Continuou o mesmo que Shakespeare, em 1602, importou dos campos espanhóis e usou pela primeira vez na literatura.

Para nomear uma personagem que na Décima-segunda Noite, na de Reis, não pôde brincar como os outros jovens, por guardar  luto.

O pesar passou.

Lento.

Mais que o esperado.

As previsões dos guardiões do conhecimento que o tempo dela, duraria no máximo 20 anos, ficam hoje, outros 25 para trás.

Os irmãos foram vindo.

Passando à frente.

Um. Dois. Três

Cada um indo mais longe.

De repente, a casa mais espaçosa.

Cheia de saudades.

O ninho, nunca vazio.

Não tardou, o recomeço.

As alegrias dos netos, divididas com a tia tão querida.

E todos os tios,  todas as tias, todos os primos.

Todos os preferidos pela sobrinha e prima mais querida.

E as três melhores cunhadas do mundo.

E todos os amigos, amigos também.

O lugar reservado  na família e nos corações conquistados com jeito.

As lembranças que tem deixado com pessoas por onde passa, nunca esquecidas.

Especial.

Isolados no  jardim, sob árvore generosa, o sentido da vida, no momento mais incerto da humanidade.

A esperança que ainda teríamos muito caminhos a percorrer, lugares e pessoas pra conhecer e retornar e que estaríamos sempre juntos.

Sem saber separar do amor, o sentimento, há cinco anos recorri à avó para comemorar seus 40 anos com uma singela homenagem:

 

Olívia,  minha neta querida:

Devo a você o mais importante título da minha vida: avó.

Você me fez conhecer a maravilha do amor de uma criança sem o compromisso de educá-la.

De experimentar a ternura inesgotável de um coração sem maldade e malícia.

De ter a felicidade de possuir uma neta que é a unanimidade da nossa família, em carinho e amor.

Quero que você saiba que sou muito orgulhosa e imensamente feliz por ter a melhor neta do mundo.

Beijos.

     Margarida da Mota Rocha 

 

***
Notas do Redator

1. O texto original, publicado em 28/04/2020, sofreu alterações 

2. Margarida da Mota Rocha faleceu em 15/11/2024, aos 95 anos.

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