OS ASTROS NÃO MENTIAM

Há cinco anos, depois de ter pegado a tigresa do zoo do Bronx e a bichana da vovó Esmeralda, o coronavírus merecia muito mais estudos que os que cientistas, epidemiologistas, âncoras de TV e palpiteiros em geral estavam apresentando.
Não devia ser mesmo coisa deste mundo.
Tesconjuro, Magalu, três vezes, Casas Bahia.
Não é que seus efeitos destruidores estavam sendo observados até fora deste nosso mundinho de Deus?
A devastação havia sido detectada até nos grotões do espaço sideral, lá pras bandas dos buracos negros, confins da via láctea.
Ninguém estava vendo o tanto de mudanças na ordenação dos planetas, porque os astrofísicos e astronautas trocavam telescópios e astrolábios por aparelhos que vêem coisas muito menores.
Igualmente distantes.
Tantinhos.
Tiquinhos.
De tamanhos medidos em nanômetros.
Milionésimos de milímetros.
O controle da pandemia dependia do comportamentos que o rastro de destruição vinha mostrando alhures.
Além da incrível capacidade de mudar e adaptar-se ao meio, por onde chegava, dava um toque loco-regional, como se autóctone fosse.
Sentava praça e se estabelecia.
Não respeitava quarentena nem se incomodava com zuada de baticum de panela velha.
No Brasil, não contava era com a astúcia nem com o histórico de atleta do então capitão-general-comandante-em-chefe, das forças de resistência.
Era missão quase impossível para qualquer vírus, mesmo os fabricados sob encomenda, enfrentar uma soldadesca treinada para pular em esgotos e nada acontecer.
Estações sismológicas com sensores mais aguçados haviam captado movimentos erráticos capazes de influenciar a configuração astral e todos os horóscopos. Incluídos os ciganos e chineses.
Como explicar que um ariano, sem preconceitos raciais, vide Hélio Negão, não pudesse manter uma relação intensa e amistosa com um ministro sagitariano, como reza a cabala clássica?
A não ser, que o ministro subordinado estivesse sonhando em brilhar mais que o astro-rei. Do que parece não ter havido evidências científicas.
Nada que um lauto jejum pentecostal associado às rezas fortes das legiões de seguidores fundamentalistas, não pudesse realinhar.
Resiliência e saco.
A crise iria passar.
Não haveria nenhum divórcio.
Aleluia, irmão.
Aleluia, irmã.
Estava escrito nas três estrelas presidenciais, a previsão para os nascidos no primeiro decanato do signo dos mansos de espírito, Carneiro:
Aliar-se aos outros e trabalhar com eles em torno de metas comuns é mais fácil nesta fase, em que a lua está no signo oposto ao seu, Libra, onde reforça sua capacidade de colaboração e lhe estimula a trabalhar em grupo.
Dica: não se envolva em atritos, evite as disputas e atue no sentido de preservar a paz. (Claudia Hollander).
O encaixe perfeito com o signo oposto, não foi o bastante para manter Mandetta no ministério.
Equilíbrio e Mansidão só existiam na clarividência dos astros.
Mesmo assim, eles acabaram conspirando a nosso favor.
Fomos salvos na cauda de um cometa.

(O texto lembra a fritura do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no auge da Pandemia)
