OS FANTASMAS DA MEDICINA

Dizem que o tempo cura tudo.
Na Roma Antiga, era mais provável que ele te matasse… ou, pior, entregasse seu corpo às mãos de um médico.
Sim, um médico.
Dqueles homens de toga manchada de sangue e intenções nem sempre claras, que deslizavam bisturis de cobre entre ossos e esperanças com a mesma facilidade com que cobravam honorários exorbitantes.
Hoje os médicos caminham sob luzes brancas e são reverenciados quase como santos da era da ciência.
Mas, há dois mil anos, a imagem era outra.
Na Roma do primeiro século, o respeito era escasso e o sarcasmo, abundante.
Os poetas faziam deles piada, como quem ri do carrasco depois da sentença.
Acusavam-nos de ganância, de lascívia, de incompetência.
E, justiça seja feita, havia quem ganhasse mais matando do que curando.
Plínio, o Velho — aquele mesmo que morreu tentando salvar os outros do Vesúvio, não poupava palavras.
Com o peito cheio de cidadania e o latim carregado de indignação, bradava em sua História Natural contra os médicos da época.
Dizia que aprendiam à custa de nossos corpos, que suas brigas entre si eram mais fatais que qualquer febre, e que seus remédios… bem, melhor morrer de peste do que engolir caracóis esmagados com carne de doninha.
E ele não estava só.
Lápides espalhadas por todo o império registravam a indignação eterna dos pacientes.
Algumas traziam a inscrição: “Uma gangue de médicos me matou.”
Mas não se pode dizer que faltava estilo.
Os instrumentos eram dignos de qualquer sala de cirurgia moderna.
Bisturis com lâminas destacáveis, agulhas, pinças, ganchos, brocas. Tudo isso, incrustado de prata, talvez para que, se a dor não cessasse, pelo menos brilhasse.
Arqueólogos na Hungria encontraram um kit completo, guardado em dois baús de madeira ao lado de um esqueleto de homem já idoso.
Médico? Talvez.
Estrangeiro? Provavelmente.
Corajoso? Com certeza.
Os romanos, por mais desconfiados que fossem, ainda mantinham uma fé quase ingênua no poder curativo desses homens.
Aulus Cornelius Celsus, em seu De Medicina, idealizava o cirurgião como uma figura quase mítica: jovem ou com aparência de juventude, mãos firmes, olhos afiados, ambidestro, indiferente aos gritos do paciente, mas empenhado em curá-lo.
Uma espécie de gladiador com bisturi.
Curiosamente, muitos desses “deuses do corte” eram gregos.
Escravos ou libertos, falavam grego e, por isso mesmo, jamais foram completamente aceitos entre os romanos. A medicina tinha sotaque estrangeiro e cheiro de servidão.
Talvez por isso, também, fosse tão desprezada.
Para se tornar médico, era preciso viver em grandes centros urbanos.
Era na prática, na rua, no mercado, com olhos atentos e dedos ousados.
Galeno, uma das grandes vozes da medicina antiga, recomendava que os médicos viajassem.
Conhecessem febres locais, pragas regionais, humores diversos. Medicina, então, era tanto ciência quanto peregrinação.
Hoje, olhamos para trás e rimos.
Será que mudamos tanto assim?
Ainda somos cobaias de novidades médicas, ainda colocamos fé em nomes complicados e exames que mal compreendemos.
Continuamos esperando que a cura venha de alguém com jaleco e palavras difíceis.
Mesmo quando o remédio é tempo, afeto e repouso.

Provocando uma garota adormecida (1760) – Gaspare Traversi – MoMa, Museu de Arte Moderna de Nova Iorque
Nota do Redator
Este texto contém informações do artigo ‘A Medicina Moderna na Roma Antiga’, de Franz Lidz, para o The New York Times, em 23/06/2023)
