PRAGA DE LEITORA

Há cinco anos, pelas leis que ainda regiam a blogosfera, até que viesse a das fakenews, qualquer cibernauta, monocraticamente, podia acusar, julgar e condenar.
Para manter livre o espírito do espaço sem dono, quem julgasse, seria julgado.
Quem torcia, será torcido.
Depois do controle da pandemia devastadora, as autoridades sentiram-se com disposição para domar a outra fera rebelde.
Não tem sido tarefa fácil. As mídias sociais sofrem mutações imprevisíveis que tornam quase impossível a descoberta de uma vacina eficaz contra seus efeitos maléficos.
Quando um projeto de lei está ainda sendo discutido na CCJ, o que era para ser regulado já perdeu interesse e objetivos, dispensando sua promulgação.
Por decurso de prazo.
E por substituição pelo novo que sempre teima em chegar.
Muitos ainda iam pro Orkut, outros já vinham do Tik Tok.
A navegação digital tem enfrentado águas revoltas e ventos tormentosos, propícios para quem se acha no direito e no dever de limitar o que o outro escreve.
Liberdade é censura nos posts dos outros.
Persistentes, não respeitam tréguas, nem mostram compaixão pelos derrotados.
A guerra é uma só.
Nunca abandonam a luta, mas todos são atingidos por novos invasores desconhecidos.
A fidelidade ao comandante é cega, sem alternativas.
Quais samurais, perdidos nas ilhas desertas de informação e bom senso, continuaram guerreando, fiés ao imperador do dia, que já não comanda exército tão numeroso nem demonstra saber conduzir a tropa em segurança.
Empregam táticas de guerrilha e partem para o ataque sem saber para onde atiram.
A leitora Maria da Penha, ao contrário da homônima, queria implantar uma lei baseada no medo para garantir seu direito de só ler o que lhe agradar.
Incomodada com o pensar pacífico do aprendiz de cronista que o rumo da nação podia mudar, sem maiores traumas, usou tática de guerrilha amaldiçoada.
O ataque na retaguarda, nos comentários do blog, área que já foi bem mais movimentada em embates de ideias e opiniões, foi absorvido sem traumas.
A arma utilizada, camuflada de mau agouro, chegou atrasada.
Não podia mais causar mal algum.
“Sabe que vai perder o emprego, você que escreveu a matéria.
Espere só, ficarás em casa, sem ninguém ao menos vai te telefonar, perderás os amigos.
A solidão te espera, receberás na mesma moeda, e no tempo de Deus.”
Aposentado, em quarentena pandêmica, já tendo renunciado ao hábito de bater um fio há muito tempo, restou propor à bruxuosa leitora, outros vaticínios.
Da próxima vez, que praguejasse para que não escapasse do serviço militar e que fosse reprovado três (mas podia ser quatro ou mais) vezes no Enem.
O septuagenário agradeceria.

(O texto sofreu atualizações temporais)
