13 de dezembro de 2025
Memória

PRAGA DE LEITORA

O Feitiço (1798) – Francisco de Goya – Museu Lázaro Galdiano, Madri


Há cinco anos, pelas
leis que ainda regiam a blogosfera, até que viesse a das fakenews, qualquer cibernauta, monocraticamente,  podia acusar, julgar e condenar.

Para manter livre o espírito do espaço sem dono, quem julgasse, seria julgado.

Quem torcia, será torcido.

Depois do controle da pandemia devastadora,  as autoridades sentiram-se com disposição para domar a outra fera rebelde.

Não tem sido tarefa fácil. As mídias sociais sofrem mutações imprevisíveis que tornam quase impossível  a descoberta de uma vacina eficaz contra seus efeitos maléficos.

Quando um projeto de lei está ainda sendo discutido na CCJ, o que era para ser regulado já  perdeu interesse e  objetivos, dispensando sua promulgação.

Por decurso de prazo.

E por substituição pelo novo que sempre teima em chegar.

Muitos ainda iam pro Orkut, outros já vinham do Tik Tok.

A navegação digital tem enfrentado águas revoltas e ventos tormentosos, propícios  para quem se acha no direito e no dever de limitar o que o outro escreve.

Liberdade é censura nos posts dos outros.

Persistentes, não respeitam tréguas, nem mostram compaixão pelos derrotados.

A guerra é uma só.

Nunca abandonam a  luta, mas  todos são atingidos por novos invasores desconhecidos.

A fidelidade ao comandante é cega, sem alternativas.

Quais samurais, perdidos nas ilhas desertas de informação e bom senso, continuaram guerreando, fiés ao imperador do dia,  que já não comanda exército tão numeroso nem demonstra saber conduzir a tropa em segurança.

Empregam táticas de guerrilha e partem para o ataque sem saber para onde atiram.

A leitora Maria da Penha, ao contrário da homônima,  queria implantar uma lei baseada no medo para garantir seu direito de só ler o que lhe agradar.

Incomodada  com o pensar pacífico do aprendiz de cronista que  o rumo da nação podia mudar, sem maiores traumas, usou tática de guerrilha amaldiçoada.

O ataque na retaguarda, nos comentários do blog, área que já foi bem mais movimentada em embates de ideias e opiniões, foi absorvido sem traumas.

A arma utilizada, camuflada de mau agouro, chegou atrasada.

Não podia mais causar mal algum.

“Sabe que vai perder o emprego, você que escreveu a matéria.

Espere só, ficarás em casa, sem ninguém ao menos vai te telefonar, perderás os amigos.

A solidão te espera, receberás na mesma moeda, e no tempo de Deus.”

Aposentado, em quarentena pandêmica, já tendo renunciado ao hábito de bater um fio há muito tempo, restou  propor à  bruxuosa leitora, outros vaticínios.

Da próxima vez, que praguejasse para que não escapasse  do serviço militar e que fosse reprovado três (mas podia ser quatro ou mais) vezes no Enem.

O septuagenário agradeceria.

O vôo das bruxas (1798) – Francisco de Goya – Museu do Prado, Madri

(O texto sofreu atualizações temporais)

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