16 de agosto de 2026
Nota

Primeiras-damas viram protagonistas da figuração nas convenções

As convenções partidárias de 2026 escancararam uma curiosa contradição da política brasileira. Enquanto as mulheres representam a maioria do eleitorado e ocupam papel central no discurso de praticamente todas as campanhas, continuam com espaço reduzido quando o assunto é protagonismo político.

Diante da escassez de candidatas nas chapas majoritárias, muitos candidatos recorreram às próprias esposas e primeiras-damas para preencher simbolicamente esse vazio — protagonistas da figuração de uma narrativa cuidadosamente construída para dialogar com o voto feminino.

LULA COM JANJA 

Em São Paulo, o episódio mais emblemático ocorreu justamente na convenção de Lula. Ao perceber que o principal ato de lançamento da campanha terminaria sem nenhuma mulher discursando, o presidente interrompeu o protocolo, fez uma autocrítica pública e chamou Janja ao palco. A primeira-dama falou sobre a rotina das trabalhadoras brasileiras e o papel decisivo das mulheres na eleição. O gesto, improvisado, acabou se transformando no principal símbolo político do evento.

FLÁVIO COM FERNANDA 

A movimentação de Lula também dialoga com uma estratégia que o bolsonarismo já havia testado com sucesso. Em momentos de maior rejeição entre as mulheres, Jair Bolsonaro passou a dar protagonismo à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que se tornou a principal ponte do campo conservador com o eleitorado feminino. O desempenho foi tão expressivo que Michelle deixou de ser apenas coadjuvante para se transformar em uma das maiores lideranças do PL e hoje desponta como favorita para uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. Nesta campanha, Flávio Bolsonaro repetiu a fórmula ao abrir espaço para a esposa, Fernanda Bolsonaro, discursar na convenção que oficializou sua candidatura à Presidência, reforçando a tentativa de humanizar a imagem do candidato e reduzir a resistência do eleitorado feminino.

TARCÍSIO COM CRIS 

No campo paulista, a estratégia apareceu sob outra forma. Na convenção de Tarcísio de Freitas, mulheres foram homenageadas durante todo o ato. O governador emocionou-se ao falar da esposa, Cristiane Freitas, entregou-lhe flores diante do público e exaltou sua importância. Ainda assim, nenhuma mulher teve espaço para discursar ao microfone.

CIRO COM GISELLE

No Ceará, Ciro Gomes também levou a esposa ao centro da narrativa. Giselle Bezerra ocupou a tribuna para apresentar ao público um Ciro sensível, afetuoso e motivado a retornar à política cearense. O discurso ajudou a construir a imagem pessoal do candidato, mais do que ampliar a representação feminina no debate político.

JOÃO COM TÁBATA

Em Pernambuco, sem uma mulher na chapa majoritária, João Campos recorreu à presença da deputada federal e esposa, Tabata Amaral. Ao subir ao palco, ela serviu de ponte para um discurso pessoal do candidato, que associou o “sim” do casamento ao compromisso de governar Pernambuco por mais quatro anos.

Mais do que coincidência, os episódios revelam uma tendência.

Com um eleitorado majoritariamente feminino e decisivo para o resultado das urnas, as campanhas perceberam que a presença das mulheres produz identificação, empatia e credibilidade. Mas, em vez de ampliar sua participação efetiva nas chapas e nos espaços de decisão, preferiram, em muitos casos, transformá-las em personagens centrais da narrativa dos candidatos. Protagonistas do palco, mas ainda coadjuvantes do poder.

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