Quando bactéria em detergente vira guerra de Esquerda X Direita

A direita bolsonarista resolveu modernizar o conceito de guerra cultural. Depois de dividir o país entre patriotas e comunistas, cidadãos de bem e inimigos da pátria, vacinados e “cobaias da ciência”, chegou a vez de polarizar os germes. Entrou em cena uma microbiologia ideológica, segundo a qual as bactérias de direita seriam perseguidos pela Anvisa.
A campanha deflagrada contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária lembra os tempos estranhos da pandemia, quando especialistas de WhatsApp ensinaram infectologistas a interpretar estudos científicos e transformaram cloroquina em símbolo de resistência política. A diferença é que, desta vez, o alvo não é vacina. É produto de limpeza. O país que já discutiu liberdade individual para tossir sobre os outros agora debate conspirações sanitárias envolvendo detergente, desinfetante e sabão para lavar roupas.
A Anvisa, diga-se, afirmou que a interdição envolveu análises do setor de vigilância do estado de São Paulo, que é governado por Tarcísio de Freitas. Ainda afirmou que o diretor da Anvisa Daniel Meirelles, responsável pelo setor que suspendeu os produtos, foi indicado à agência durante o governo Bolsonaro. Assim não se trata de uma polarização, mas de uma realidade.
Quem quer saber de realidade afinal?
Nas redes sociais, robôs digitais trabalham em ritmo industrial para espalhar a tese de que o recolhimento de um lote de produtos Ypê teria menos relação com controle sanitário do que com vingança política pelas doações feitas pelos fabricantes à campanha de Bolsonaro em 2022.
A lógica é impecável: se uma empresa apoiou a direita, qualquer contaminação microbiológica automaticamente vira perseguição do “sistema”. A bactéria deixa de ser microrganismo e passa a ser militante infiltrada da esquerda.
Com aliados assim, Flávio Bolsonaro dispensa adversários. O bolsonarismo neandertal conseguiu converter um problema técnico de vigilância sanitária em mais um capítulo da eterna contra inimigos imaginários. O Brasil entrou numa fase tão avançada da guerra política que já não basta disputar votos. Agora é preciso disputar também as bactérias.
Por Josias de Souza e Lilia Schwarcz
