11 de maio de 2026
Nota

Quando o candidato trata jornalismo como oposição

A semana política no Rio Grande do Norte termina marcada por uma sequência de entrevistas do pré-candidato ao governo, Álvaro Dias (PL), que revelam um padrão: desconforto com o passado e ausência de respostas sobre o futuro. A percepção não é isolada. Foi sentida também por este Território Livre, presente bancada da 98 FM, e se repetiu em outros veículos como Band TV e 95 FM.

O roteiro tem sido previsível. Críticas repetidas e previsíveis  ao “caos do PT”, esforço visível para se encaixar em um figurino de liberal moderado com acenos ao bolsonarismo e, sobretudo, resistência a perguntas objetivas sobre sua própria gestão.

Questionamentos legítimos — como os alagamentos na engorda de Ponta Negra ou a recorrente impossibilidade de uso da praia — são tratados como ataques políticos. Em um dos episódios, um jornalista foi praticamente enquadrado como adversário ou militante por fazer o que se espera da imprensa: perguntar.

O incômodo se repete em outros temas.

Ao ser questionado pela jornalista Georgia Nery sobre a ausência de mulheres na chapa, faltaram respostas. Poderia ter recorrido a exemplos recentes, como a indicação de uma vice-prefeita em sua própria sucessão, mas preferiu o silêncio desconfortável em risos e trejeitos.

O mesmo ocorre quando o assunto é a entrega de obras ainda sem funcionamento, como o Hospital Municipal ou o mirante da Ladeira do Sol. São temas de interesse público, não de militância.

E é justamente aí que entra o “partido do jornalismo”: perguntar, insistir e cobrar respostas.

No campo das propostas, o vazio é ainda mais evidente.

Falta clareza sobre o que move sua candidatura ao governo. A pergunta básica — “governar para quê, para quem, por que?” — segue sem resposta concreta.

Méritos do passado, como a condução durante a pandemia ou avanços urbanísticos, não substituem um projeto de futuro. O eleitor pode até desejar mudança, mas não abre mão de entender como ela será feita.

No fim, o que se vê não é um embate entre adversários políticos, como tenta sugerir o pré-candidato, mas entre expectativas legítimas da sociedade e respostas que ainda não vieram.

E enquanto isso persistir, o papel do jornalismo não muda: seguir perguntando.