SEM MITIGAÇÃO

As palavras até podem cair no esquecimento, por desuso ou obsolescência, mas, um dia, acordam para lembrar, como fantasmas, que estão vivas.
A pandemia mostrou a vida útil de termos técnicos, empregados à exaustão, para logo serem transferidos ao arquivo morto da prosódia.
No início do enfrentamento, na curta intervenção do Imperial College de Londres na administração estadual, os cientistas que abundaram os noticiários das TVs, especialistas em previsões catastróficas, além de números terríveis, plantaram palavras de vida midiática efêmera.
Sem ter passado de constante ameaça, a amarga pílula do lockdown será sempre rejeitada, nos agravos de doença vindouras, por carência de comprovação científica.
As doses de solidão preconizadas, variáveis a cada onda de contaminação, jamais serão prescritas novamente.
Uma clementíssima trindade epidemiológica que foi apresentada em cenários e planos traçados sem largos horizontes, não resistiu ao pouco tempo passado, e já pede, novamente, explicações em notas de rodapé, nos livros grossos da Ciência.
Diante do monstro que havia chegado, entre correr e o bicho pegar, nas opções apresentadas, nomes reposicionados no vernáculo, como drogas para utilização off label.
Poucos haverão de lembrar os conceitos que dominaram as discussões, e sozinhos, resolveriam todos os problemas:
Inação, Mitigação, Supressão.
As medidas restritivas, hoje vistas pela câmera de ré, são risíveis, não fossem tão cruéis.
Com os batalhões de propagação da doença concentrados nos transportes coletivos de frota reduzida, não se pode estimar os prejuízos pelo fechamento de escolas e negócios.
Alunos, empresários e trabalhadores que perderam oportunidades, patrimônio e empregos, fazem as contas que jamais serão esquecidas.
Na proustiana busca do tempo perdido, a revelação que o projeto passou longe da linha de montagem.
O senhor da razão constatou, que nada aconteceu como previsto.
Nem o desastre, menor que o desenhado, mas terrivelmente devastador.
Sem alternativas eficazes, vacinar todos em 8 meses, era delírio de malucos que os sábios da academia não ousavam sonhar.
Em meio ao caos, não tardou a volta de outros palavrões encontrados nos escaninhos dos parlamentos, e sempre recorridos quando se deseja chafurdar malfeitos, procurar culpados, bodes malcheirosos, holofotes e votos nas eleições futuras.
Comissão Parlamentar de Inquérito.
No quarto aniversário de sua instalação, o que deixou a senatorial madame, além de lições de hipocrisia e arrogância, lembranças de cenas de terror e, tempo e recursos perdidos?
No futuro, a crítica mais benevolente haverá de reconhecê-la, sofrível substituta do Big Brother Brasil.

(Para que os fatos não caiam no esquecimento, o texto publicado há três anos, foi atualizado)
