14 de fevereiro de 2026
Memória

TSUNAMI NO SERTÃO


A Grande Onda de Kanagawa  (1830) – Katsushika Hokusai – Exemplares da xilogravura estão expostos no Museu Guimet (Paris), no Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque, no Museu Britânico e na Biblioteca  Nacional da França.


Os devotos de
São Glauber Rocha decifraram o divino e maravilhoso sinal recebido. E não esconderam que o fim da espera estava próximo.

Nostradamus havia descrito as chegadas da Pandemia e do  Anticristo.

As duas desgraças, com os dias contados em vacinas e crises políticas, realinhariam  os astros e anunciavam a profecia do santo visionário de Vitória da Conquista.

A fé recebia a força que faltava, das ciências ocultas e da vulcanologia, e poucos ainda duvidavam que era chegada a hora e a vez de o sertão virar mar.

Uma questão de dias.

As caldeiras da Cumbre Vieja nas franjas da ilha de Palma de Santa Cruz de Tenerife estavam aquecidas.

Depois que o velho cume tombasse, como uma onda havaiana, o mar iria invadir as  terras do sertão e do cerrado.

Só quem habitasse o planalto central poderia contar a estória.

Pelos presságios registrados,  a  nação a ser fundada pelos que restassem, não teria futuro auspicioso.

Triste Bahia, quão semelhante Brasil.

Há duas décadas, quando caminhava pelas areias alvas das praias onde acaba o mar dos macacos, cercanias  da cidade que já foi de Filipe e de Frederik, um sertanejo que havia trocado o ardume da sua terra seca  pelo calor do areal esturricado e salgado, sentiu estranha vibração .

Naquele mormaço, um pressentimento mudou a vida de quem estava ali só para um punhado de dias de doce descanso.

Foi uma visagem tão clara, que pareceu real.

No sonho de olhos abertos,  a parede d’água, coisa maior que cinco braças, varria tudo. Todas as casas e até prédios de poucos pavimentos, ficavam embaixo d’água.

Ainda não refeito do transe, correu pra reunir mulher e filhas. No apartamento de primeiro andar que havia comprado por insistência delas, contou a aparição.

Comparou a quimera do outro mundo com uma tromba d’água capaz de  arrombar um  açude do tamanho do Barra, que segura as águas do Velho Chico na chegada  mansa em Sertânia.

Ainda passou uma quinzena de sobressaltos e sono maneiro.

Nem o barulho ritmado das marés enchentes e vazantes, trazia calma.

Passados os anos, a patroa, as herdeiras e candidatos a genros, continuavam a chegar como aves de arribação, a tempo de pular as sete ondas e ofertar prendas à Rainha Iemanjá.

Por precaução e certo pavor, o chefe do clã nômade, nunca mais voltou a sentir o ar salitroso na vizinha Paraíba.

Aos amigos de longe, mandava lembranças e notícias de progressos nos negócios.

Aos de perto, dava conselhos para ficarem longe do perigo

Recomendações desprezadas pela família, separada por mais de 300 km e por um casamento desfeito e multiplicado por dois.

O poder destruidor de um tsunami começa muito antes do que se possa imaginar.

Ainda bem que  a ira das Canárias passou rápido.

Como um verão em Cabedelo.

 

Fuji Vermelho (1832) – Katsushika Hokusai –Museu de Belas Artes, Boston


Praias  de Tago Bay, Ejiri em Tokaido (1832) –Katsushika Hokusai – Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque


Trinta e seis vistas do Monte Fuji (1832) – Katsushika Hokusai – Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque


Onda Feminina (1845) – Katsushika Hokusai – Museu Houkusai, Tóquio


(O texto publicado há quatro anos, foi atualizado)

 

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