UM CORPO ESTENDIDO NA RUA

Que a caminhada matinal, entre outros benefícios à vitalidade, fortalece os músculos, todos estão cansados de saber.
Principalmente os oito da língua.
Mas não tem a menor graça quando solitária e silente.
Gregária, vira grupo de terapia e ajuda mútua.
Não há catálogo melhor pra encontrar encanador, médico pontual ou eletricista de confiança.
Ainda que persista uma certa deficiência na indicação de marceneiros que cumpram os prazos acertados.
Seus trending topics mudam de posição com o calendário eleitoral, operações da polícia federal, separações litigiosas, separações dos mansos e tabelas dos campeonatos de futebol.
Na hora de puxar assunto, há ainda quem sinta falta da Coluna de Jairo Procópio.
Notícias de doenças, internações e mortes, têm prioridade.
Naquele dia, o bonde já ia andando em velocidade de cruzeiro quando chegou um retardatário.
Pegou a missa já depois do ofertório.
O assunto era a saúde de um ausente.
Não deu pra entender se o que se falava era sobre falta parcial ou total.
Que ninguém dá notícia de quem dela goza.
Com tantos facultativos, a conversa, em tom de consternação, era recheada de termos técnicos.
Com intimidade, tomos, cineangios, cats, stents.
Sem saber o desfecho que naquelas alturas, devia ter sido anunciado adrede, arriscou perguntar pelo paciente.
Ou pelo de cujus.
A resposta foi de cortar o coração.
O corpo do amigo estava na Rua São José.
A pergunta seguinte deixou todos surpresos.
Se as últimas homenagens já estavam sendo prestadas no Centro de Velório.
Antes que as lágrimas de saudade começassem a brotar e todos os defeitos do finado anistiados, o caso foi devidamente esclarecido.
O corpo e a alma do pranteado estavam realmente na Rua São José.
Na UTI da Promater.
E passavam bem.
Quase de alta, prontos pra receber visitas no apartamento.

(Este texto foi publicado em 01/08/2019)
