19 de agosto de 2026
Política

WEINTRAUB – O RETORNO


Napoleão em Santa Helena (1828) – Charles de Steuben – Museu da Armada, Paris


Abraham Weintraub passou pelo Ministério da Educação como um cometa barulhento: muito brilho, muito rastro e uma cauda de polêmicas que ainda fulgura nas redes sociais.

Não deixou reformas profundas, mas jamais faltou à aula de lacração.

Havia assumido  o cargo com a missão autoatribuída de desesquerdizar a educação brasileira, e levou a sério a missão

Saiu sem entregar políticas públicas robustas, mas distribuiu um vocabulário novo: gramscismo, doutrinaçã, balbúrdia. E, claro, o clássico imprecionante — legado de valor incalculável para professores de português e colecionadores de gafes.

Durante sua gestão, enfrentou universidades, socou a gramática, trocou a ciência pela ideologia e declarou guerra aberta ao bom senso.

Teve mais embates com reitores e jornalistas do que com o analfabetismo funcional — talvez porque o primeiro fosse mais visível no ex-Twitter.

Tentou transformar o Enem,  campo minado de ideologia, e o MEC numa espécie de bunker do olavismo tardio.

Em seu entorno, assessores disputavam quem puxava mais o saco, tentando se manter no barco até o último PowerPoint.

Herói!, gritavam. Melhor Ministro da Educação da história! — diziam, com os olhos no Diário Oficial e o currículo pronto.

O cargo já estava frio antes mesmo de ser oficialmente desocupado.

O moço do cafezinho — aquele termômetro infalível da repartição pública — já nem passava pelo gabinete.

Nem adoçante oferecia mais. Sabia que o gosto era amargo e o fim inevitável.

Foi fritado. Sem dó, sem óleo e sem aviso.

Assado lentamente nas brasas das intrigas palacianas, foi servido no telejornal com direito a retrospectiva e trilha sonora.

Até os 300 do Brasil — aqueles de verde e amarelo na aba do chapéu — baixaram as bandeiras em luto simbólico.

Não pela educação, mas pelo espetáculo que se encerrava.

Deixou o governo  como chegou: falando alto, apontando culpados e distribuindo adjetivos como se fossem méritos.

E, claro, ensaiando um próximo ato.

Porque alguns nunca saem de cena, apenas procuram novos palcos.

Depois de um doce exílio  em Washington, e quatro mil insuficientes votos para a  Câmara dos Deputados, agora flerta com a ideia de candidatura à Presidência da República.

Sim, a  cadeira mais cobiçada da Praça dos Três Poderes tem muitos pretendentes.

Se depender da militância mais fiel e enraizada, Abraham deve ser o escolhido da direita — o “filósofo” que enfrentou a máquina com boutades e citações mal digeridas.

Para eles, seria o presidente ideal: outro sem papas na língua, sem assento na semântica e sem pudores gramaticais.

Num país em que a política virou um talk show interminável, por que não dar o microfone a quem é visto somente como piada de bar, personagem de charge e saudade mal-explicada?

Abraham não passou.

Sua meme ficou.

Para o bem ou para o riso, ainda nos renderá boas anedotas.

Quem sabe?

O Brasil já elegeu cada um…

 

O retorno de Napoleão da Ilha de Elba (1818) – Charles de Steuben – Coleção privada

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *