WEINTRAUB – O RETORNO

Napoleão em Santa Helena (1828) – Charles de Steuben – Museu da Armada, Paris
Abraham Weintraub passou pelo Ministério da Educação como um cometa barulhento: muito brilho, muito rastro e uma cauda de polêmicas que ainda fulgura nas redes sociais.
Não deixou reformas profundas, mas jamais faltou à aula de lacração.
Havia assumido o cargo com a missão autoatribuída de desesquerdizar a educação brasileira, e levou a sério a missão
Saiu sem entregar políticas públicas robustas, mas distribuiu um vocabulário novo: gramscismo, doutrinaçã, balbúrdia. E, claro, o clássico imprecionante — legado de valor incalculável para professores de português e colecionadores de gafes.
Durante sua gestão, enfrentou universidades, socou a gramática, trocou a ciência pela ideologia e declarou guerra aberta ao bom senso.
Teve mais embates com reitores e jornalistas do que com o analfabetismo funcional — talvez porque o primeiro fosse mais visível no ex-Twitter.
Tentou transformar o Enem, campo minado de ideologia, e o MEC numa espécie de bunker do olavismo tardio.
Em seu entorno, assessores disputavam quem puxava mais o saco, tentando se manter no barco até o último PowerPoint.
Herói!, gritavam. Melhor Ministro da Educação da história! — diziam, com os olhos no Diário Oficial e o currículo pronto.
O cargo já estava frio antes mesmo de ser oficialmente desocupado.
O moço do cafezinho — aquele termômetro infalível da repartição pública — já nem passava pelo gabinete.
Nem adoçante oferecia mais. Sabia que o gosto era amargo e o fim inevitável.
Foi fritado. Sem dó, sem óleo e sem aviso.
Assado lentamente nas brasas das intrigas palacianas, foi servido no telejornal com direito a retrospectiva e trilha sonora.
Até os 300 do Brasil — aqueles de verde e amarelo na aba do chapéu — baixaram as bandeiras em luto simbólico.
Não pela educação, mas pelo espetáculo que se encerrava.
Deixou o governo como chegou: falando alto, apontando culpados e distribuindo adjetivos como se fossem méritos.
E, claro, ensaiando um próximo ato.
Porque alguns nunca saem de cena, apenas procuram novos palcos.
Depois de um doce exílio em Washington, e quatro mil insuficientes votos para a Câmara dos Deputados, agora flerta com a ideia de candidatura à Presidência da República.
Sim, a cadeira mais cobiçada da Praça dos Três Poderes tem muitos pretendentes.
Se depender da militância mais fiel e enraizada, Abraham deve ser o escolhido da direita — o “filósofo” que enfrentou a máquina com boutades e citações mal digeridas.
Para eles, seria o presidente ideal: outro sem papas na língua, sem assento na semântica e sem pudores gramaticais.
Num país em que a política virou um talk show interminável, por que não dar o microfone a quem é visto somente como piada de bar, personagem de charge e saudade mal-explicada?
Abraham não passou.
Sua meme ficou.
Para o bem ou para o riso, ainda nos renderá boas anedotas.
Quem sabe?
O Brasil já elegeu cada um…

O retorno de Napoleão da Ilha de Elba (1818) – Charles de Steuben – Coleção privada
