21 de abril de 2024
Papo de domingo

Etiqueta para WhatsApp: “Toda hora, não!”

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Semana passada um artigo de Antônio Prata na Folha de São Paulo ficou martelando na minha cabeça. Sabe daquelas coisas que a gente pensa há tempos e ainda não escreveu, vai o cara e… fala tudo sem deixar nem o farelo sobre a mesa. Pois é, foi caso.

Ainda abordou o tema de forma bem humorada. Nõa é fácil fazer criticas e autocrítica com tanto humor. Reproduzo trechos a seguir e volto com um olhar local sobre o tema.

Já que estamos viciados nos celulares e autocondenados a arrastá-los por aí como as bolas de chumbo dos prisioneiros nas histórias em quadrinhos, é mister entrarmos num acordo sobre algumas mínimas normas de etiqueta.

Não me refiro aos trolls do Twitter, aos ogros da dark web, às almas sebosas que dedicam a vida a aprofundar, via redes sociais, o murundu em que nos encontramos (sic).

Desses cuidará o capeta no décimo nono círculo do inferno atualizado de Dante. Falo aqui das pessoas de bom coração que, por falta de um protocolo, atrapalham-se com os talheres do WhatsApp.

Mensagem de voz, por exemplo. Há quem queira proibi-la. Minha irmã fica revoltada com quem manda: “A gente estudou junto! Ele era legal! Teve pai e mãe legais. É um profissional sério. Doa pro Médicos Sem Fronteiras. Medita. Como pode mandar áudio?!”. Meu amigo Sérgio tem como legenda do WhatsApp: “Não ouço áudio”. Dava um bom epitáfio. Se bem que no caso do morto, que tampouco lê mensagens, talvez fosse melhor simplesmente: “Offline”.

Sou menos radical quanto às mensagens de voz. Acho que têm seu lugar. Num grupo de trabalho, para fazer comentários urgentes. Se estou na feira e a minha mulher escreve perguntando cadê a chave reserva do carro e eu tenho que dar umas doze possibilidades de onde posso tê-la deixado. Quando se está dirigindo. (Embora eu desconfie que 67% dos brasileiros que começam o áudio dizendo “Desculpa o áudio, é que eu tô dirigindo” estão na verdade deitados no sofá). Fora dessas situações excepcionais, áudio é um abuso. É quase como condenar alguém a assistir a um filme que dura o tempo que levou para ser produzido. (Emílio, meu caro, não leve a mal. Eu gosto de você mesmo assim e espero que possa dizer o mesmo de mim depois desta crônica).

Generosidade igual peço ao Paulo, cujo costume, exato oposto do áudio, criticarei aqui. Ele escreve: “Oi”. Ou: “Mano”. E só. Isso nos obriga a um diálogo inútil que é “Oi”. “Oi”. “Tudo bem?”. “Tudo e você”. “Tudo. Então, tem o celular da Clarissa?”. Pra que isso? Se você quiser conversar, me escreve dizendo “Vamos conversar?” e eu te ligo com o maior prazer, mas todo este longo e inútil frescobol digital só pra pedir o celular da Cla? Qual o sentido?

Fabrício: sei que você é poeta e está acostumado a escrever em versos, mas não precisa mandar cinco mensagens pra dizer “Oi.” “Antonio”. “Tudo bem?”. “Você vai na festa do Gustavo?” “Que horas?”. Ouço essa metralhada de “Pim! Pim! Pim! Pim! Pim!”, penso que começou a terceira guerra mundial e vou correndo ler as mensagens para saber se o abrigo antiaéreo mais próximo é o piscinão do Pacaembu ou a estação Marechal Deodoro.

Mãe: quando você começar a responder uma mensagem e desistir no meio, apague-a. Senão eu fico olhando praquele “digitando…” na tela por sete horas, até perceber que você foi fazer outra coisa da vida e já são quatro da manhã e eu não jantei e nem tomei banho e nem fui pra cama e vou precisar de um quiroprata pra curar meu torcicolo.

Pior que áudio, porém, pior que o “Oi” solitário, a metralhada ou o “digitando…” eterno, é o egoísmo daquele sujeito cujos tracinhos de mensagem lida jamais ficam azul, tirando de quem escreveu a possibilidade de saber se foi lido. É de enlouquecer. Sei bem, porque fiz isso há quase um ano e tenho recebido inúmeras reclamações.

Para criarmos coletivamente este urgente Manual de Etiqueta do envio e recebimento de mensagens, proponho –e aqui entra o último desvio whatsáppico, o pior de todos, um de que sofro e com que faço os outros sofrerem–: vamos criar um grupo?

TL CONTA MAIs

Quando o este TL ressurgiu das quase cinzas, fui conversar com algumas pessoas do mercado, professores de Comunicação e leitores enfim. Afinal, o mundo hoje começa e acaba pelo tal zapzap. Para mim, confesso, um desafio a mais. Sou daquelas que até para passar WhatsApp pensa: “será que estou atrapalhando, será que fulano dormiu ou acordou, será que está almoçando, será???.. ” Fato é que a fórceps saiu a primeira lista de transmissão com pessoas mais próximas e amigas, claro. Nos primeiros dias a resposta mais sincera, objetiva e clara que poderia ter. Foi de minha amiga, a professora Débora Seabra de Moura. Disse com sua educação e fidalguia de sempre:

– Não estou gostando, Laura

Desculpe, Débora, você não quer receber mais as notícias do nosso Território Livre na lista de transmissão?

Ela, mais uma vez, sincera e didática:

– Toda hora assim, não!

Se ja estava achando chato fazer aquilo para importunar as pessoas, imagine agora com essa lição da Professora Débora.

A crítica da primeira professora com Síndrome de Down do Brasil serviu para encontrar o ponto de equilíbrio; duas listas, no máximo, por dia.

Caso haja algo surpreendente e EXCLUSIVO, gasto a bala de prata.

Aceito sugestões, via zap, claro.

Enquanto os comentários pululam no whats, por aqui estão cada vez mais raros. Mas isso rende outro “Papo de Domingo”.

3 thoughts on “Etiqueta para WhatsApp: “Toda hora, não!”

  • observanatal

    Quanto ao que é etiqueta no WhatsApp, insuportável mesmo parece que é ter que usá-lo, com talheres ou comendo direto no prato, sem o uso das mãos.
    Já sobre listas de transmissão, melhor resumo é o da professora Débora Seabra. Absolutamente centrada.

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  • FRANCISCO DINIZ

    Hoje se cria problema aonde não existe. Fácil a solução: não lê. Simples assim!!!!

    Resposta

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