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Não se discute qual foi a  mais significativa e emocionante participação na cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos.

Entre celebridades e campeões de bilheteria,  uma jovem, com jeito de adolescente, mostrou o seu valor ainda pouco conhecido fora dos meios literários, personificando as esperanças de uma nação em sofrimento, no momento de sua maior crise e de maiores divisões.

Uma aparição hipnotizante.

Bela, negra, com roupas bem comportadas e um penteado que traduzia o orgulho da raça, como em júbilo pelo momento em que a primeira mulher assumia a vice-presidência.

Aos 22 anos, Amanda Gorman já concluiu um curso superior. É socióloga. Formada na Universidade de Harvard.

Foi bolsista.

É poeta.

A mais jovem poetisa laureada publicou, há três anos, seu primeiro livro

“Aquele para quem a comida não é suficiente.”

Com doçura e crueza contou a vida de criança pobre, filha de professora primária, criada sem pai.

Na performance, frente às câmeras do mundo inteiro, da multidão de bandeiras que representavam os 330 milhões de norte-americanos, de três ex-presidentes e do que era empossado, repetiu o desejo de uma negra magrela descendente de escravos e criada por mãe solteiraexternado há alguns anos, de sonhar, um dia, ser também presidente da mais poderosa nação de todas.

Na declamação,  a mensagem que a paz e uma vida menos desigual precisam de união e da  convivência com os diferentes.

Seu exemplo merece ser mostrado aos jovens de outras terras e outros mundos com semelhantes desafios.

Seu próximo livro tem o título do poema recitado nas mesmas escadarias que duas semanas antes, serviram de palco para o deplorável episódio que ameaçou a democracia,  modelo e exemplo para tantas mais.

The hill we climb. (A colina que escalamos).

Para ser fiel à realidade, a tradução brasileira requer adaptação.

O morro que subimos.

Que motive os jovens nascidos em condições mais adversas ainda.

Os que crescem às margens das oportunidades, são seduzidos pelos desvios da sociedade e que não perceberam ainda que só a educação redime, que há uma luz e que eles também podem brilhar.

A jovem americana já havia escrito:

O novo amanhecer floresce quando o libertamos.  Pois sempre há luz.                                                        Se ao menos formos corajosos o suficiente para vermos isso.                                                                     Se apenas formos corajosos o suficiente para sermos isso.

Outro grande poetinha não teve sua prece atendida.

O morro não teve vez. Ainda não deram vez ao morro.

Quem sabe, a hora não é agora?

Da juventude descer o morro e começar a escalada da colina.

O caminho, a poesia de Amanda Gorman mostra.

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A COLINA QUE SUBIMOS

Quando chega o dia, nos perguntamos, onde haverá luz nesta sombra sem fim?

Tão grande a perda que carregamos.

Tão largo o mar que devemos cruzar.

Enfrentamos a força do monstro.

Aprendemos que o silêncio nem sempre significa paz e as regras e as noções do que é “justo” nem sempre significam justiça.

E, ainda assim, o dia amanhece antes que possamos perceber.

De alguma forma, nós fazemos isso.

De alguma forma, resistimos e testemunhamos uma nação que não está partida, mas apenas incompleta.

Nós, os herdeiros de um país e de uma época em que uma mulher negra e magricela, descendente de escravos e criada por uma mãe solteira, pode sonhar em se tornar presidente, e se descobre recitando para ela.

E, sim, estamos longe de sermos polidos, longe de sermos originais, mas isso não quer dizer que não estejamos nos esforçando para criar uma união perfeita.

Estamos nos esforçando para forjar nossa união com uma finalidade.

Para formar um país comprometido com todas as culturas, cores, personagens e condições do homem.

E, então, erguemos o olhar, não para aquilo que se interpõe entre nós, mas para o que está à nossa frente.

Diminuímos a separação por sabermos colocar o futuro em primeiro lugar, e para isso, devemos, antes de tudo, colocar nossas diferenças de lado.

Baixamos nossos braços para podermos estendê-los aos outros.

Não queremos mal a ninguém, mas, sim, a harmonia entre todos.

Deixem o mundo, senão, quem mais, dizer que isto é verdade.

Que enquanto sofríamos, nós crescíamos.

Que enquanto nos magoavam, sentíamos esperança.

Que mesmo cansados, nós tentávamos.

Estaremos sempre juntos e vitoriosos.

Não porque nunca mais teremos que enfrentar a derrota, mas porque nunca mais semearemos a discórdia.

A Bíblia nos diz que todos se sentarão sob sua própria videira e figueira, e ninguém os afligirá.

Se estamos aqui para aquilo que nos cabe viver, então a vitória não está na espada, mas em todas as pontes que construirmos.

Esta é a promessa da clareira, para subirmos a colina, se tivermos coragem.

Porque ser Americano é mais do que um orgulho que herdamos.

É o passado que carregamos conosco e o transformamos.

Vimos uma força que destruiria nossa nação, em vez de compartilhá-la.

Teria destruído nosso país, se tivessem subjugado a democracia.

E esse desastre quase aconteceu.

Mas, embora possam, por vezes, subjugar a democracia, ela nunca será permanentemente derrotada.

Nesta verdade, nesta fé, nós confiamos, pois enquanto mantivermos os olhos no futuro, a História continuará a nos seguir com o seu olhar.

Esta é a era da justa redenção.

Nós tememos no início.

Não nos sentíamos preparados para herdar um momento tão terrível.

Mas, dentro dele, encontramos a força para escrever um novo capítulo, que nos trouxesse esperança e risos.

Então, enquanto nos perguntávamos como iríamos vencer a catástrofe, agora dizemos, como a catástrofe haveria de nos vencer?

Não marcharemos de volta ao passado, mas para aquilo que virá:

Um país que está ferido, porém inteiro, que é benevolente, mas ousado, feroz e livre.

Não seremos desviados ou interrompidos pela intimidação, pois sabemos que, se a próxima geração herdar nossa inércia e omissão, isso será seu futuro.

Nossos erros se tornarão seus fardos.

Mas uma coisa é certa.

Se unirmos misericórdia e força, e força e direito, então, legaremos o amor como herança e isso mudará o direito de nascimento dos nossos filhos.

Assim, deixemos um país melhor do que aquele que herdamos.

A cada alento que ressoa em meu peito, tornaremos este mundo ferido em um mundo maravilhoso.

Nós nos levantaremos das colinas douradas do Oeste.

Nós nos levantaremos do Nordeste batido pelos ventos, onde nossos antepassados lutaram sua primeira revolução.

Nós nos levantaremos das cidades à margem dos lagos nos estados do Meio Oeste.

Nós nos levantaremos do Sul escaldado pelo sol.

Nós iremos reconstruir, nos reconciliar e nos recuperar.

E em cada canto conhecido de nossa nação e em cada canto que chamamos de país, nosso povo diverso e belo, emergirá maltratado e esplêndido.

Quando chega o dia, saímos da sombra das chamas, sem medo.

O novo amanhecer se eleva no momento em que o libertamos.

Pois sempre haverá luz,

Se tivermos coragem para vê-la.

Se tivermos coragem para sermos essa luz.

(Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta).

Comentários do Site

  1. Cinara Marinho de Andrade
    Responder

    Formidável! Já li diversas vezes e cada vez sinto uma emoção não antes sentida. Depois desses 4 anos tivemos oportunidade de nos transbordar de esperança e apreciar essa jovem poetisa. Ainda estou “mesmerized”.

  2. Maria Dalva Araujo
    Responder

    Parabéns Domício!
    Obrigada por nos dar a conhecer o conteúdo do discurso de Amanda Gorman.
    Você sempre antenado com os acontecimentos, nos ajuda a melhor entender, tudo que nos ocorre.

  3. Domicio Arruda
    Responder

    Quem me passou esta tradução primorosa foi Cinara Marinho Andrade, natalense que mora no Canadá há muitos anos.
    Dela também plagiei o comentário:
    Mesmerizing.
    (Hipnotizante)

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