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Um protesto contra o presidente Jair Bolsonaro este mês em São Paulo, Brasil. Foto:Victor Moriyama para o New York Times


Um relatório muito aguardado da comissão senadores brasileiros conclui que Jair Bolsonaro propositalmente deixou o coronavírus matar brasileiros em uma tentativa fracassada de imunidade coletiva.

Por Por Jack Nicas, para o The New York Times, 19 de outubro de 2021

BRASÍLIA, Brasil – Uma comissão parlamentar deve recomendar acusações de homicídio em massa contra o presidente Jair Bolsonaro, afirmando que ele intencionalmente deixou o coronavírus rasgar o país e matar centenas de milhares, em uma tentativa fracassada de obter imunidade coletiva e reviver a maior economia da América Latina  .

Um relatório da investigação do painel do congresso, trechos dos quais foram vistos pelo The New York Times antes de seu lançamento agendado para esta semana, também recomenda acusações criminais contra 69 outras pessoas, incluindo três dos filhos de Bolsonaro e vários funcionários do governo atuais e antigos.

Na melhor das hipóteses, é incerto se o relatório do painel de 11 membros – sete deles oponentes de Bolsonaro – levará a quaisquer acusações criminais reais, dadas as realidades políticas do país.

Mas no Brasil profundamente polarizado, isso reflete as profundezas da raiva contra um líder que se recusou a levar a sério a pandemia.  O relatório pode provar uma grande escalada nos desafios enfrentados por Bolsonaro, que assumiu o cargo em 2019, enfrenta a reeleição no próximo ano e está sofrendo uma queda de popularidade.

As acusações extraordinárias aparecem em um relatório de quase 1.200 páginas que efetivamente culpa as políticas de Bolsonaro pelas mortes de mais de 300.000 brasileiros, metade do número de mortos por coronavírus do país, e exorta as autoridades brasileiras a prender o presidente, de acordo com trechos de  o relatório e entrevistas com dois dos senadores da comissão.

“Muitas dessas mortes eram evitáveis”, disse Renan Calheiros, o senador brasileiro de centro que foi o principal autor do relatório, em uma entrevista em seu gabinete na noite de segunda-feira.  “Estou pessoalmente convencido de que ele é o responsável pela escalada do massacre.”

Desde o início da pandemia, Bolsonaro fez de tudo para minimizar a ameaça do vírus.  À medida que países ao redor do mundo fechavam as portas e seu próprio povo começava a encher hospitais, ele incentivou as reuniões em massa e desencorajou as máscaras.  Um cético declarado quanto à vacinação, ele criticou qualquer um que ousasse criticá-lo como irresponsável.

Essas ações, argumentou o relatório, resultaram em homicídio em massa.

O gabinete de Bolsonaro não respondeu aos pedidos de comentários, mas o presidente criticou a investigação do Senado sobre sua forma de lidar com a pandemia por ser politicamente motivada.  “Você sabia que hoje fui indiciado por homicídio?”  ele perguntou aos apoiadores depois que os primeiros detalhes vazaram.  Mais tarde, ele chamou Calheiros de “sujo”.

As conclusões do relatório culminam em uma investigação de seis meses por um comitê especial do Senado Covid-19 que realizou mais de 50 audiências.  Eles se tornaram obrigatório na televisão no Brasil, apresentando depoimentos sobre esquemas de suborno e operações de desinformação.  Um legislador usou um colete à prova de balas para testemunhar que algumas compras de vacinas incluíam propinas.

Escrito por um pequeno grupo de senadores após uma ampla investigação, o relatório também acusa Bolsonaro de “genocídio” contra grupos indígenas na Amazônia, onde o vírus dizimou populações por meses depois que os hospitais ficaram sem oxigênio.  Essas alegações não devem ganhar força com os promotores brasileiros, de acordo com especialistas legais, e parecem certas para dividir ainda mais uma nação já fragmentada.

Enquanto a pandemia assola o Brasil, o vírus está causando um impacto excepcionalmente alto na região amazônica.

O relatório descobriu que o presidente havia promovido medicamentos não comprovados como a hidroxicloroquina bem depois que eles se mostraram ineficazes para o tratamento da Covid-19 e que sua administração causou um atraso de meses na distribuição de vacinas no Brasil ao ignorar mais de 100 e-mails da Pfizer.  Em vez disso, seu governo optou por pagar a mais por uma vacina não aprovada da Índia, disse o relatório, um acordo que foi posteriormente cancelado por suspeitas de enxerto.

Calheiros defendeu os planos do comitê de recomendar acusações de homicídio e “genocídio indígena” contra Bolsonaro, dizendo que eles eram precisos sob uma leitura técnica da lei brasileira.  Ele enquadrou a acusação de homicídio como assassinato “por omissão” – o que significa que Bolsonaro permitiu mortes que ele era responsável por prevenir.

Creomar De Souza, um analista político independente em Brasília, disse que embora as audiências do comitê revelassem um manejo incorreto da pandemia, “não vi nenhum elemento concreto forte o suficiente para acusar o presidente de genocídio ou homicídio”.  Ele disse que sete senadores que se opõem ao presidente controlam efetivamente o comitê de 11 membros.

O comitê deveria divulgar o relatório na quarta-feira e votá-lo uma semana depois.  O grupo de sete senadores da oposição geralmente concorda com o relatório, disse Calheiros, sugerindo que seria aprovado.  O Times viu o que foi descrito como um rascunho final, embora os detalhes ainda possam mudar antes de seu lançamento.

TL Comenta:

A dose sugerida pelo relator da CPI, para os americanos, que continuam liderando os números trágicos de casos e mortes, pareceu bombástica.

E exagerada.

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