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A notícia da morte de Paolo Rossi despertou traumas nunca esquecidos.

Depois de  38 anos, lembranças amargas foram atiçadas. Cada uma,  com sua decepção em gradação particular.

A euforia  pela seleção,  que aflora a cada quatro anos, nutrida por elenco e técnicos ao gosto popular e um presidente da república que pouco ligava para futebol (dizia gostar mais do cheiro dos cavalos), tinha que desembarcar na praia do já ganhou.

Zico, Sócrates, Falcão e Cia começaram arrasando. Nas oitavas, passeio, goleadas, eliminação da Argentina e  Galvão Bueno  que já repetia que era  muito bom ganhar dos hermanos.

Clima de euforia.

O país mobilizado, enfeitado, pintado de verde-amarelo, pronto  para torcer por quem estava encantando o mundo, não tinha como parar.

A nação  que acordava de um longo pesadelo, precisava de algo que marcasse o fim de uma era.

A página a ser virada da história, merecia muitos gols de placa, medalhas de ouro e o caneco, pela quarta vez.

Eram novos os ares da política.

Os carrancudos generais-presidentes já não metiam medo.

Ninguém mais era preso nem arrebentado.

Tortura, nunca mais.

A abertura gradual, próxima de escancarar as últimas portas, já não era tão lenta.

Os exilados  continuavam chegando. E fazendo festa.

O teste dos saguões dos aeroportos, cheios de gente, com os craques da política, anistiados, voltando nos ombros do povo, foi didático.

Muitas meias dúzias de brahmas e mil panelas de feijão preto depois, não dava mais pra segurar o grito nas gargantas dos campeões do mundo.

O sonho já era possível. E o clamor pelas eleições livres, um brado só.

Logo, as ruas estariam cheias com muito mais que os cem mil de quatorze anos atrás, seguindo a canção, o senhor diretas e o hino puxado por Fafá de Belém.

O jogo contra um timinho desacreditado, mais para sparring que scratch, era só um degrau, faltando três para a glória.

Que venham, na final, os alemães.

Aquele centroavante franzino, dois anos longe dos gramados, só podia ser piada de italiano.

Spaghetti alla Carbonara a ser devorado com fome de vencedor.

Quem iria imaginar que três gols, saídos daquelas pernas de sibite, lavariam em lágrimas, as esperanças da pátria de chuteiras?

Mesmo quem sentiu as mesmas emoções, tristezas e alegrias em nove outras copas, jamais esqueceu.

Agora, no pranto ao algoz de 1982, a sofrida memória é revivida.

Há uma geração de brasileiros que assiste todas estas reminiscências sem qualquer sentimento especial.

Só tem um jeito de entenderem o que os cinquentões e os ainda mais experimentados estão passando.

Lembrem-se de Zinedine Zidane.

Com ele, foi dupla, a dose.

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