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A verdade saindo do poço (1896) – Jean-Leon Gérôme

A aventura de uma nova Confederação do Equador não resistiu à primeira onda.

Há um ano, morreu na praia, sem fôlego,  por falta de equipamentos para o suporte ventilatório do seu frágil organismo.

O Consórcio Nordeste foi tragado pela onda pandêmica nas águas escuras da corrupção burocrática.

O episódio, paternalmente  censurado na profana inquisição da CPI da Cloroquina, trouxe um efeito colateral positivo.

Os governadores que tentavam experimentar o método do ex-ministro Ricardo Salles de aproveitar a pandemia, para escancarar as porteiras da Fazenda Revalida e deixar passar a boiada dos médicos das escolas fronteiriças.

A legalização de diplomas de formados por correspondência, nos novos institutos universais, fica pra depois.

No país com maior número de escolas médicas do mundo, houve um tempo que o falso diploma precisava ser falsificado de verdade.


(Publicação original em 22/06/2019)

O FANTÁSTICO DOUTOR FAKE.

É o tipo de estória que (quase) nunca acaba com final feliz.

A não ser a do personagem mau-caráter vivido por Reginaldo Faria na novela  Vale Tudo.

Virou clássica sua cena final.  A bordo de luxuoso jatinho, o picareta, depois de enganar meio mundo e Seu Raimundo, montado em grana preta, livre e solto, dá uma senhora banana ao fugir do Bananão.

Na vida real,  muito antes da dramaturgia, um dos mais conhecidos especialistas do Rio de Janeiro, depois de mais de 25 anos de prática médica, é revelado um tremendo farsante.

Que levava um estilo de vida invejável.

Cobertura na Lagoa. Mercedes último tipo. Prestígio.

Diretor de hospital filantrópico.

Status.

Clientela ampla e seleta. Organizador dos mais concorridos seminários, sempre com estrelas internacionais.

Ainda arranjava tempo, disposição e documentos fajutos para ser dos quadros efetivos do Banco do Brasil e do INAMPS. Dois dos mais almejados empregos.

Sucesso era o nome dele.

A bonança acabou quando chegou a era da informática.

Na digitalização dos arquivos do Conselho de Medicina, o início do inferno astral.

O ilustre cidadão abaixo de qualquer insuspeita, usava a inscrição e passava por  facultativo falecido.

Sobrinho de renomado cirurgião, sempre nas férias, vinha do interior, aprender mais na cidade maravilhosa. Depois, com permissão da faculdade que havia  abandonado no segundo ano, longas foram as temporadas como estagiário.

O tio ensinou ao pupilo os segredos do nobre ofício e a arte de curar.  Como em  tempos bíblicos.

As portas abertas e o acesso privilegiado às pessoas certas, foram bem aproveitados.

O resto veio com talento, trabalho, determinação e sorte.

E o maldito computador.

A revista Veja trouxe a penúltima informação. Teria fugido para o Paraguai.

Depois de concluir (de verdade) o curso nas terras do Chaco, diploma revalidado e atualização na Europa, retomou seu desígnio.

Como num folhetim

…30 anos depois…

a última notícia. E o desfecho.

(plano americano)

Ainda sem cogitar aposentadoria, exerce o mister de urologista, com o desvelo de sempre.  Em aprazível e bucólica cidade do litoral fluminense.

                   THE END

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Escondendo a verdade – Mareen Haschke (pintora norte-americana contemporânea)

Comentários do Site

  1. Geraldo Batista de Araújo
    Responder

    Deus me livre dos medicos formados por correspondência. Minha sorte é que estou na reta final da vida (88 em novembro) e até lá terei Dr. Domicio para me socorrer.

  2. Maria das Graças de Menezes Venâncio
    Responder

    Realmente, Dr. Geraldo Batista de Araújo tem toda a razão. Cair nas mãos de um médico picareta é triste. Formados por correspondência então, assemelham-se a outras categorias profissionais. Vide o caso de advogados e até juízes e juízas.