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O Carteiro Roulin (1888) – Vincent van Gogh – Museu de Arte, Boston


Recebeu de herança,  uma fazenda mais ou menos produtiva, no pé da serra.

Para ser dividida com um irmão.

Citadino por natureza, só foi conhecer seu quinhão quando pensou em vendê-lo para investir em novos negócios, na urbe.

O armazém de secos e molhados do pai era o modelo a ser seguido.

Começaria seu império empresarial com um pequeno comércio no mesmo ramo.

No tempo em que não se pensava em  coaches,  não poderia ter, sozinho, elaborado  melhor estratégia.

Depois de estabelecido como homem  de negócios, de família tradicional, com tantos amigos, conversador que era, tinha tudo pra fazer uma bela carreira política.

Os bens rurais não se converteram em riqueza.

O fraternal  sócio, com precisão de GPS em tempos de agrimensor, delimitou suas posses a uma imensa pedra.

Sem despertar o interesse de outros compradores, pela sólida propriedade, recebeu um irrisório pagamento.

Os planos da mercearia foram rebaixados para a categoria  bodega.

A vida pública e o  sonho de servir aos concidadãos, esbarrou na falta de votos para vereador. Em repetidas tentativas.

Como todo bom estrategista, identificou a hora de acionar o plano B.

E de entrar com toda a força  na onda desenvolvimentista do governo JK.

O irmão-deputado que já vinha colocando correligionário em pontos chaves da administração, conseguiria emplacar mais um funcionário exemplar.

Com uma única exigência.

Que fosse  emprego federal, estável e maneiro.

Pauzinhos mexidos nos labirintos do poder e o providencial empurrão do Deputado Dioclécio Duarte, resultaram na publicação no diário oficial que só não agradou ao nomeado. Que queria posição de mais status.

E remuneração.

Hélio Arruda Câmara, ao assumir, a contragosto, o disputado emprego público, podia imaginar tudo, menos que sua missão seria reconhecida um dia, não pela simples entrega de cartas,  mas por conectar pessoas, instituições e negócios no Brasil e no mundo.

Precursor do SEDEX, o Condutor de Malas Nível 1, nunca deixou de reclamar da árdua tarefa de transportar os malotes dos Correios e Telégrafos, da estação de trens para a agência da empresa.

Do outro lado da via férrea, a não mais de duzentos metros de distância.

Ladeira a baixo.

Nem dos políticos a quem mendigou, sem sucesso, uma promoção que o livrasse da subordinação ao intragável chefe.

Além de intransigente, Lelinho achava que Neco do Correio tinha um defeito incorrigível.

Era comunista.

(O texto original foi despachado no malote de 24/09/2019)

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Moça lendo uma carta na janela (1659) – Johannes Vermeer – Pinacoteca de Dresden, Alemanha

 

 

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