12 de junho de 2024
Saúde

DOENÇA DE BRANCO

 

Homem Tapuia (1666) – Albert Eckhout – Museu Nacional da Dinamarca, Copenhague.


A pandemia que atingiu a todos, em todos os países, a todas as raças, foi mais letal em alguns grupos étnicos.

As explicações ainda estão para ser esclarecidas, no futuro.

Nos Estados Unidos observaram que os estragos foram maiores nos bairros e cidades com predomínio da população afro-americana.

Ao se espalhar por áreas menos densamente povoadas, o grande mal do século 21  também atingiu com violência, as comunidades ameríndias.

Costumes, hábitos higiênicos, cohabitação gregária, características imunológicas e deficiências na assistência médica, os prováveis motivos.

No Brasil, os índios na mesma condição, não tiveram direito aos mesmos rigores estatísticos.

Dos nossos silvícolas sabemos que são suscetíveis às doenças dos brancos, às viroses comuns da infância dos brancos, e a todos os outros perigos levados  pelos brancos.

Visto da taba, no faroeste da vida, os mocinhos sempre  são os cara-pálidas.

A lembrança de um primeiro contato com aborígenes,  vem à memória quando a TV mostra alguma reportagem nos confins amazônicos.

A viagem seguia tranquila até a aproximação da Baía da Traição.

Trânsito intenso, lento,  e logo adiante, caminhões  no acostamento. Parada obrigatória.

Acidente?

Outra paralisação de caminhoneiros contra aumento de preços do óleo diesel?                 

É o que dá viajar com Spotify, desprezando as velhas e boas ondas do rádio.

Logo,  tudo estava esclarecido.

A solidariedade de quem estava parado disseminava a informação: protestos de índios.

Índios de verdade. Destes que já se encontra facilmente até em Macaíba.

Os povos primitivos da praia não estavam aceitando a municipalização da saúde indígena  e o viajante  a ponto de perder  o almoço com a neta no Recife.

O  teste dos bravos guerreiros parahybanos com a tolerância dos governantes devia ter alguma fragilidade.

E tinha.

E vinha a bordo.

No  banco de trás, sonolenta, descabelada, escorada por travesseiros, envolta em mantas, a filha alérgica exibia no rosto, o exantema salvador.

Nem o cacique, nem o pajé, nem mesmo a enfermeira da FUNAI quiseram reter aquela paciente com doença não diagnosticada pelos esculápios potiguares e consulta agendada com um tampa-de-crush em Mauritsstad, na Nova Holanda.

Quem sabe, não era contagiosa, a moléstia?

Mulher Tapuia (1666) – Albert Eckout -Museu Nacional da Dinamarca, Copenhagen

(Partes deste texto foram publicadas  em 10/03/2019)

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