É PRECISO PROIBIR

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Adão e Eva (1530) – Lucas Cranach – Museo Nacional de San Carlos, Cidade do México


A melhor maneira  de mostrar autoridade, é proibindo. E quem há de negar que eles não são superiores?

-Ainda é proibido proibir, Caetano Emanoel?

Cabe ao proibido, reagir. E antes da rebelião inevitável, quando possível, mostrar as inconsistências, contradições e o ridículo de certas determinações dos encastelados no poder terreno, que se julgam deuses. Ou no mínimo, ungidos por eles.

Entre os sucessivos decretos  governamentais de medidas restritivas para o enfrentamento da pandemia, poucas, se alguma, resistiram ao crivo do tempo. E olhe, que só se passaram dois anos.

A exigência de certificado de vacina, apelidado de passaporte sanitário, para quem desce de ônibus lotado, nas portas dos shopping centers, só tem comparação com uma batida estória já contada nesta nesga de Território Livre, quando de outro insensato embargo.

Não havia a menor suspeita que a segunda década do século seria tão frenética,  quando foi anunciado o banimento dos radinhos de pilha, dos ouvidos dos torcedores, nos campos de futebol.

Com pompa, circunstância e coletiva – forma ancestral das lives dos epidemiologistas hodiernos – foi  dada a justificativa, baseada na Ciência do Compotamento.

Segundo as autoridades de altas patentes policiais, era para evitar que os mais inflamados transformassem seus receptores sonoros em armas semi-letais.

Típica memória atávica que aflora em mentes iluminadas pelo obscurantismo.

Essas lendas urbanas ganharam os gramados, relvas e areeiros, no auge da zona franca de Manaus.

Há bons quarentanos diziam por aí, que os  aparelhos sintonizados na frequência AM, eram tão baratos  no meio da selva amazônica, que os hooligans manauaras levavam sacos deles para jogar no filho da mãe do juiz e nos dois bandeirinhas, igualmente filhos de Deus.

Não há registro de ocorrências mais graves, mesmo nos jogos do Nacional  contra o Fast Clube.

Hoje, com tantos árbitros auxiliares, o protesto torna-se antieconômico.

No e-commerce, o mais barato pode ser encontrado a 50 reais. E pela foto meramente ilustrativa, de plástico raquítico, inadequado para uso bélico.

Se apostavam no fácil acesso aos manuais terroristas de fabricação caseira de bombas, os peritos criminais não foram acionados para opinar sobre aquela química aplicada ao desporto.

É que muita gente faz confusão entre pilha e bateria. Esclareça-se que há uma diferença fulcral.

A pilha tem dois eletrodos, mas  é uma só unidade. Já a bateria é um conjunto de pilhas ligadas em série ou em paralelo.

Não é preciso ser nenhum Mendeleev, nem Lavoisier para concluir pela inocência da fonte de energia proibida, enquanto que outros equipamentos de mesmo tamanho e peso, não eram alcançados pela determinação, nem pela força da obtusa lei.                  

Foi lembrado  que os celulares também devessem ser proibidos.

Na defesa, o argumento lúcido que não apresentavam o menor risco.

Tinha virado também, objetos de estimação.            Companheiros tão fiéis como só ZéDirceu e Queiróz  sabem ser. Extensões dos nossos corpos.

Ninguém há de imaginar que algum fanático vá amputar uma mão, por macabro exemplo, para atirar no fdp de preto.

Há mais de 50 anos, havia surgido polêmica semelhante.

Agora, neste textículo, a Fenat informa: sai a secção de eletroportáteis entra  a de hortifruti.

A venda de laranjas foi banida no velho estádio Juvenal Lamartine.

A proximidade do público no modelo de arena pré-moderna, e o hábito de rebolar o bagaço chupado nas cucurutas da autoridade máxima do espetáculo, foram as justificativas aceitas por todos.

Menos pelos vendedores das peras e bahias, que reclamaram da liberação dos frutos que Ari Barroso descobriu, brotam nos coqueirais.

Uma laranja, qualquer um joga. Já um coco…

Argumento usado pelo presidente da federação de futebol que ninguém ousou contestar.

João Machado, doublé de cartola e radialista, não era mesmo de empatar festa de ninguém.

Nem a produção de quengas na nossa  fazenda iluminada.

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Lei e Evangelho (1929) – Lucas Cranach – Galeria Nacional de Praga
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Melancolia (1532) – Lucas Cranach – Museu de Unterlinden, Colmar, França

Ouça:

Caetano Veloso – é proibido proibir (LEGENDADO)

 

Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

One thought on “É PRECISO PROIBIR

  • 25 de janeiro de 2022 em 18:34
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    Eita que esse texticulo está arretado. Pena que passaporte não pesa….

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