B2936637-4C4C-414A-BB3B-D0C69EFCBC6E

A aurora da vida que os tempos não trazem mais, cento e cinquenta anos depois,  pode ter imortalizado Cassimiro de Abreu mas já não evoca  as mesmas saudades em todos.

Das raras luluzinhas que ousam se aproximar daquele bando de machistas misóginos, uma andava sumida. Muito antes da pandemia.

Por ter se mudado para mais longe ou trocado o perfil na rede social para relacionamento sério, passou a  mandar notícias esporádicas.

Das de fazer inveja à porção bicho-grilo que habita o porão de cada um.

De Jeri a Arembepe, passou pela fumaça de um xamã em Machu Picchu até que mandasse fotos do retiro espiritual em Katmandu.

O desterro silencioso do isolamento durou até a flexibilização alcançar também os mais zens.

No reencontro, tantas para falar, experiências iguais, até surgir a novidade e o interesse maior, quase assunto único do momento.

Depois de ter, em priscas e em vão, tentado um único adepto para a auto-hemoterapia, uma panaceia mais suave poderia penetrar aquela almas embrutecidas.

Se bem que os florais de Bach haviam falhado em sensibilizar os espíritos homofóbicos que continuam insistindo  que os anjos têm sexo. E nenhum é Rafaela. Ou Gabriela.

Quem sabe, não é chegada a hora de mais uma terapia alternativa para se somar a tantas que despertam paixões no enfrentamento da temível doença, ainda desconhecida.

Escolheu com cuidado quem poderia influenciar os outros, como fazem os que  acreditam no efeito rebanho.

Se funcionasse com o Professor, daria certo com os demais.

A harmonia e o equilíbrio do organismo, quem não iria querer?

E mais, sem esforço algum, além de um rápido treinamento on-line.

Nos frasquinhos cuidadosamente arrumados, óleos essenciais com promessas de acalmarem as vidas traumatizadas pelo longo confinamento e angustiadas com o futuro do incerto novo normal.

Aromaterapia era a receita aprendida com o guru indiano.

Fazer o bem, missão a ser cumprida para a evolução nesta passagem pelo vale de lágrimas.

A gosma esfregada em demonstração, no pulso,  não foi difícil de identificar.

Alecrim, quem não reconhece?

Debaixo das árvores frondosas, no início da manhã ainda fresca, o pedido para a cobaia fechar os olhos, respirar profundamente e começar uma pequena viagem interior que continuaria no curso oferecido, a mais vagar.

Jornada interrompida nos primeiros passos e devaneios quando lembrou, com voz hipnotizante, que aquele era o cheiro que leva as pessoas à infância e lembranças mais puras.

A reação de quem já avista a ladeira íngreme da nona colina, foi desconcertante.

E bastante para mudar o assunto para temática mais contemporânea.

As lembranças da minha infância não cabem neste vidrinho. E nem de longe, a vida dura que levei cheira a alecrim ou qualquer outra coisa boa.

3FA966B1-DDEE-42E6-B4FB-C87B9C939E29

Comentários do Site

  1. Ivan Lira
    Responder

    Gosto muito do seu texto, feito em períodos curtos e parágrafos pequenos. Mas o de hoje, mesmo bom, perdeu para a imagem, uma seleta “frasco/florterapia” com ares de prateleira da casa da avó. Uma regressão que vale meia cura. O cheiro do alecrim é bônus.

Deixe um comentário