26 de abril de 2024
Comunicação

MORTES ANUNCIADAS

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Funeral em Ornans (1850) – Gustave Courbet – Museu d’Orsay, Paris


Última honra reservada somente  aos muito famosos.

Artistas, atletas, escritores, políticos, magnatas.

Pessoas de grandes feitos (ou bens) e os que tiveram mais de quinze minutos de glória terrena.

Com pouco espaço na imprensa brasileira, as secções de obituários são encontradas apenas em algumas revistas e, escondidas, nos principais jornais.

Em outros países, o costume de como comunicar as mortes das pessoas foi preservado, mesmo com a mudança para o meio digital.

Nos Estados Unidos, todo jornal regional as têm em destaque.

As pessoas tomam conhecimento dos membros da comunidade que chegaram ao fim da jornada mundana. Ficam sabendo como serão as últimas homenagens e se  podem ser feitas à distância.

Envio de flores e mensagens postadas para os familiares, substituem os velórios.

Sugestões para doações a entidades beneficentes, em honra dos pranteados, também são frequentes.

Fazer sala a defunto, é cada vez mais old fashioned.

Mesmo assim, os serviços religiosos continuam a ser anunciados em detalhes.

Nome do celebrante e horário de início e fim da solenidade religiosa.

Sempre seguida de recepção, informações sobre o cardápio da rápida refeição a ser servida.

Jornalistas especializados escrevem as biografias dos falecidos.

A história de pessoas que passaram a vida, sem nunca ter estado em evidência, nem nas manchetes.

E os que nunca foram reconhecidas por grandes conquistas.

Aqueles que se dedicaram à família, ao trabalho para o sustento dela e a cuidar que seus genes continuem eternos, têm como derradeira  e muitas vezes, primeira homenagem pública, um relato do que foi  importante na sua vida.

Os necrológios trazem  foto recente e a data e local do último suspiro.

A causa da morte, para os mais velhos,  a ser deduzida pela forma do passamento.

Em paz. Tranquilamente. Sem sofrimento. Subitamente. Trágica. Com muito amor. Cercada pelos familiares. Inexplicável. Depois de longa enfermidade.

Segue-se uma detalhada biografia.

Filiação. Igreja onde foram batizados. Crismados. Vida escolar desde o jardim da infância até a alma mater universitária.

Esportes praticados. Relação dos títulos  conquistados ou se a prática era com espírito olímpico.

Igreja onde casaram. Nome do pároco.

Lugares em que moraram. Se globe trotters, por onde viajaram.

Clubes e associações aos quais pertenceram.

Hobbies.

Trabalho voluntário. Até com mais destaque que o profissional.

Honras cívicas  aos que prestaram serviço militar e em que bases serviram.

Sobreviventes da Segunda Guerra, da Coréia, Vietnam, Iraque ou Afeganistão recebem títulos de  heróis.

Casamento.

Se múltiplos, o nome do último cônjuge. Os filhos do casal e dos outros, registrados como de relacionamentos anteriores.

Não podem faltar as listas de todos que ficam, sobrevivendo aos finados. E dos que os antecederam na partida.

A reportagem funerária acrescenta as principais características dos ausentes. Muito além das nossas contidas e repetidas condolências, de grande ou irreparável perda e de que era uma boa pessoa, que fará muita falta.

As lembranças podem ser como as de uma senhora que ultrapassou os 104 anos. As últimas três décadas, inquilina de um lar geriátrico:

Seus dias foram alegrados com versos bíblicos diários, observando as mudanças das estações, todo dia uma xícara de chá quente, vendo a primeira neve do ano, os sinais da chegada da  primavera e o colorido das folhas caídas no outono.  No último domingo ela se juntou a Jesus no céu

Ou de uma jovem, solteira, falecida aos 35 que teve recordações diferentes na  descrição dos  seus  últimos dias:

Seu relacionamento com os pais foi ímpar. Gostava de conversar sobre política com o pai e sair com a mãe. Seu vínculo com irmãos e irmãs era forte. Eles passavam muito tempo juntos, conversando, e tinham uma ligação que não será esquecida.

No último ano, fez muitas outras conexões. Enfermeiros, técnicos de enfermagem e médicos na Hematologia da Clínica Mayo. Cada um deles compartilhou com sua família como foram impactados por sua vida e quão gratos eles ficam por tê-la conhecido

Blessed  be their memories.

(Abençoadas sejam suas memórias).

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Depois do jantar em Ornans (1949) – Gustave Courbet – Palácio das Belas Artes, Lille, France.

             (Publicação original  em 7/3/2020)

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